Antes de começar a escrever este texto, eu gostaria de dizer o que me levou a decisão de escrevê-lo. Primeiro vai contra a idéia do blog, que é de fazer análises de filmes. Tenho assistido pouquíssimos filmes como sempre e nenhum me despertou motivação alguma para escrever aqui. A motivação agora veio de um sonho, muito estranho, mas até em sonho em costumo pensar nessas coisas.
Vou começar a partir da criação de três personagens, tal como eu pensei em meu sonho. Dois deles estão ligados por uma relação que tem entre si, um deles rouba e o outro é o roubado. O terceiro deles possui uma relação de outro tipo, também rouba, mas por motivos diferentes.
Então começamos com o ladrão e sua vítima. A vítima é orientada por um valor de que não se deve vingar de modo algum, o "dar a outra face". O ladrão é um sádico, rouba insistentemente dessa vítima com a missão de conseguir facilmente o que quer e ainda ter o prêmio de ver a sua vítima infeliz por não poder fazer nada a respeito.
O terceiro, outro ladrão, rouba porque acredita que não existe ligação entre uma pessoa e um bem, ou seja, acredita que a propriedade privada é algo inventado. Motivação diferente do outro ladrão sádico, chamarei esse aqui de ladrão rebelde.
Devem ter percebido até o momento que a vítima age de acordo com a ética da convicção em termos bem weberianos mesmo. Do contrário, o ladrão rebelde age por uma ética da responsabilidade, ele rouba porque acredita que assim vai conseguir restabelecer uma ordem que ele acredita ser a ideal.
Existe um motivo para eu ter citado esses três exemplos, especialmente o último. Porque a atual sociedade, pelo menos a ocidental tem acreditado que a propriedade privada é legítima? Existe um valor meritocrático que diz que as pessoas tem coisas porque elas simplesmente fizeram por merecer.
Daí o ladrão rebelde não acredita nisso, para ele a relação de posse é apenas um fato dado. Pior que isso, ele pode acreditar que a posse veio a partir da exploração. Marx diria que a riqueza teria vindo da mais-valia. Só que o empresário capitalista tem posse dos meios de produção, ou seja, das máquinas. Logo, a riqueza de uma produção não é oriunda apenas da parte humana, mas também da material. Assim a riqueza é legítima, pois a posse dos meios de produção também é legítima por meios meritocráticos ou hereditários que também são legítimos.
Outra coisa a respeito do ladrão rebelde. Ele pode muito bem roubar insistemente desde que não sofra coerção alguma sobre esse fato. Já se foi dito por vários filósofos que estudaram o Estado, que esta instituição garante a propriedade. O que não quer dizer que garantir é o mesmo que legitimar. De qualquer maneira, o que vale a pena salientar aqui, é que o Estado só existe de fato quando consegue ter um poder de coerção sobre os indivíduos, sem ele, qualquer ladrão pode roubar a la vonté. Mais importante que tudo isso, é que a liberdade se torna uma espécie de prêmio para aqueles que conseguem burlar as leis e não serem incriminados, o que entraria em outra discussão.
Essa sociedade meritocrática é mais visível em países desenvolvidos que aqui. Na verdade, o valor da meritocracia é praticamente um dos valores máximos da sociedade norte-americana. Provavelmente veio a partir da guerra fria, não vale a pena discutir sua origem aqui, apenas dizer que ela existe.
Em contrapartida, não é tão visível num país como o Brasil. O que dá margem para o surgimento de rebeldes que possuem uma mentalidade parecida do ladrão rebelde. A que se deve essa discrepância de pensamento?
Poderiamos dizer que a possibilidade de ascenção sendo diferente nessas duas sociedades geraria um valor diferente de meritocracia. Na sociedade norte-americana uma ascenção de um degrau para o que está logo acima é bem maior que aqui no Brasil. Do contrário, no Brasil casos de ascenção de um degrau muito baixo para um bem superior é bastante visível.
Então, nos Estados Unidos é muito comum dizer que alguém acendeu por puro esforço próprio, seja por estudo, ou por uma boa administração da carreira, correndo atrás de oportunidades, trabalhando bem e gerando lucros para empresas.
Aqui no Brasil o enriquecimento é encarado de outra forma. Quando não visto como explorativo, é visto como alguém que chegou a determinado posto por indicação, por sorte, características estéticas e por que não por "jeitinho brasileiro"?
Diriam então que valores meritocráticos se devem exclusivamente a uma determinada condição econômica? Ou seja, a existência de uma determinada estratificação social juntamente das possibilidade de ascensão resultantes de uma conjuntura econômica. Mas não é bem assim. Citarei novamente Weber. Para mim, a relação que existe entre meritocracia e capitalismo é análoga a que o grande sociólogo alemão faz em relação a ética protestante e o espírito do capitalismo. Não é uma relação direta, mas é um fator importante a ser analisado para entender porque as pessoas trabalham e se dedicam tanto. Do mesmo modo, nós podemos dizer que sem esse valor meritocrático, a sociedade não teria aceitado a propriedade privada e também o capitalismo, pois todos teriam analisado da mesma forma que Marx!
Contrariando novamente as perpectivas econômicas, eu não diria que o salário é apenas orientado pela demanda e a oferta de empregos disponível. Alguem que recebe um salário baixo por catar papel recebe um salário baixo porque simplesmente recebê-lo. Catadores de papel nem conseguem entender o que é a lei de oferta e demanda, mas entendem muito bem que se tivesse estudado mais poderiam ter conseguido um salário maior.
O salário pode até ser determinado economicamente, mas aceitado não. Existem mais coisas que devem ser analisadas por aí. E disso tudo nós conseguimos entender agora porque aceitamos nosso modo de vida.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
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